terça-feira, 4 de julho de 2017

Pesquisa no CE incentiva consumo de insetos para combater a fome

Grilo, mosca, larva e formiga não fazem parte da dieta tradicional do brasileiro e até geram repulsa. Mas, criados de forma adequada, são comestíveis. E o melhor: são nutritivos e podem ter bom sabor.

Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) cria insetos e os utiliza em pratos elaborados para que a população tenha os primeiros contatos com a dieta baseada nestes bichinhos, ainda novidade no Brasil.

O G1 foi recebido com um banquete de insetos e conheceu a pesquisa no departamento de gastronomia da universidade. São pratos típicos da nossa culinária, como queijo, tapioca, brigadeiro, crepe, mas tudo recheado com larvas e grilos.

"Os insetos dão crocância ao prato. Eles vão agregar valor proteico e crocância para o paladar", explica Rafael Queiroz, professor de gastronomia na UFC.

A ideia é que a comida seja atrativa e de gosto conhecido para o público perder o "tabu", explica Cristiane Coutinho, doutoranda em agronomia na UFC. Já nas próximas décadas, conforme os pesquisadores, o inseto será uma necessidade na alimentação global.

"A gente não tem como mudar o hábito alimentar do homem agora, mas a gente está mostrando a importância do inseto na alimentação, que tem proteína, entre outras substâncias necessárias para o desenvolvimento humano, e mostrando que isso é algo que vai acontecer num futuro. A gente está divulgando primeiramente a importância", afirma.

O estímulo à dieta tem como base um estudo da FAO, órgão da ONU para alimentação, que defende os insetos como uma resposta para o combate à fome no futuro, quando os atuais modelos de alimentação serão insuficientes para alimentar 9 bilhões de pessoas, população estimada do mundo para 2050.

As guloseimas foram aprovadas no primeiro teste da equipe, realizado em dezembro de 2016 em um congresso interno da UFC.

"A gente ficou muito surpresa quando fez o trabalho de entomofagia. Não sobrou nada e a gente fez bastante comida. O teste foi bem aceito, tinha gente que voltava pra comer mais, foi um importante feedback. Teve aluno que sugeriu colocar [os insetos] no sanduíche do RU [restaurante universitário]", lembra Paula Jéssica, estudante de Biologia.

Não vá sair comendo qualquer inseto

Antes que alguém possa pensar em pegar insetos por aí e preparar uma receita que viu na internet, a equipe tem um alerta: os insetos comestíveis são criados em condições especiais de higiene. Ainda assim, nem todos podem ser consumidos.

"Há mais ou menos 1,5 milhão de insetos descritos e só 1,9 mil deles podem ser consumidos. Eles são criados de forma especial, não são como os insetos que estão nas ruas", diz Cristiane.

No Brasil, apenas duas empresas estão habilitadas a vender insetos para consumo animal, mas nenhuma para alimento humano. Na prática, explica Cristiane, os pesquisadores adquirem o material dessas empresas, por falta de uma indústria no país habilitada a esse tipo de comércio.

Barreira para popularização

Além do tabu cultural, o preço do principal ingrediente para esses pratos é uma barreira. Enquanto uma carne bovina de boa qualidade pode ser adquirida por R$ 25 o quilo, os insetos custam até R$ 200 cada quilo.

Para Cristiane Coutinho, com a popularização desse tipo de dieta e o consequente aumento da oferta e da demanda, a tendência é que os insetos fiquem mais baratos com o tempo.

Um quilo de tenébrio [bicho-da-farinha] custa R$ 120, morto, desidratado, pronto para consumo. O quilo do grilo sai em volta de R$ 200 ou mais. ''São caros, mas porque não tem competição, são poucas empresas nesse ramo. Eu acredito que futuramente, quando houver essa aceitação, quando as famílias começarem a criar, vai ser algo tão comum que o preço não vai ser tão elevado", diz Cristiane.

Sem impacto ambiental

Outra vantagem citada pelos pesquisadores da UFC para estimular a alimentação com base em insetos é o baixo impacto ambiental que eles causam. Milhares deles podem ser criados até a fase adulta dentro de uma caixa, com pouco gasto e durante pouco tempo, já que eles têm um ciclo de vida curto.

"Para manter um boi, você precisa desmatar, precisa de uma área muito maior, alimento. Eles vão emitir uma quantidade muito mais elevada de gases que causam o efeito estufa", argumenta a pesquisadora Cristiane Coutinho.

Para efeitos de comparação, a carne bovina é constituída em 24% de proteína, enquanto a dos insetos é de até 70% de proteína. "A tanajura, que a gente tem pratos com ela no Ceará, tem 43% de proteína; a larva, até 70% de proteína. Ele também é fonte de ferro, cálcio e outros elementos nutricionistas."

Fonte: G1