sábado, 15 de abril de 2017

Ceará ainda tem 42 açudes no volume morto e 18 secos

No Ceará, 42 açudes permanecem em volume morto, na atual quadra chuvosa. É o nível mais profundo de suas reservas, antes de secarem. Esses reservatórios continuam sendo usados para o abastecimento de centros urbanos, com reforço de água oriunda de poços profundos, poços amazonas (cacimbões), adutoras e de carros-pipa. Outros 18 estão secos. Os dados são do Portal Hidrológico da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh).
De acordo com a Cogerh, a categoria volume morto leva em consideração que os açudes acumulam um pouco de água e que essa reserva varia segundo a dimensão da barragem, cuja cota está inferior à tomada de água. O Jaburu II, em Independência, tem apenas 0,3% e o Jenipapeiro II, em Baixio, 0,11%. Ambos estão configurados com volume morto, ao lado do Santa Maria do Aracatiaçu, em Sobral, que tem 14,70%.
Distribuição
O fornecimento da água bruta é feito pela Cogerh, mas a água tratada que chega às torneiras das casas é de responsabilidade da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) e do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE). Essas duas empresas enfrentam dificuldades para manter o abastecimento de dezenas de cidades de forma regular e com um mínimo de qualidade desde o início do atual ciclo de perda de volume nos açudes a partir de 2012.
Já são seis anos seguidos de perda de reservas de água nos reservatórios. "A situação não está fácil", disse o chefe do escritório da Cagece, em Ipaumirim, Natan Dantas.
O Açude Jenipapeiro II foi construído para abastecer três cidades: Baixio, Ipaumirim e Umari. "No reservatório, não houve recarga, mas o nível dos poços melhorou com as chuvas", observou Dantas. "Com dificuldades a gente fornece água, mas com a ajuda dos poços".
O Açude Patu, em Senador Pompeu, acumula apenas 2,2%. Apesar do reduzido volume, há previsão de que o abastecimento poderá ser feito até setembro próximo. "O inverno ainda não terminou e a gente espera que ocorra um aporte", disse o chefe do escritório da Cagece, Douglas Nobre. "Um poço foi perfurado e a gente injeta água no sistema de tratamento e distribuição".
A cidade de Piquet Carneiro enfrenta cada vez mais dificuldades para o abastecimento da população local. O Açude São José II acumula apenas 0,03%. "A água não serve mais para beber", observa a chefe do escritório local da Cagece, Neila Almeida. "Temos três poços profundos e dois cacimbões e água do açude é um reforço no período da noite", explicou. "Temos mais dois poços para ser instalados pela Coelce".
De acordo com Neila Almeida, os poços não atendem à demanda com regularidade. "Alguns são ruins de água e isso nos dá dor de cabeça", frisou. "O açude não pegou água e estamos com racionamento". Mediante o quadro de crise, ela espera que a população colabore, reduzindo o consumo. O fornecimento de água ocorre somente por algumas horas e o quadro tende a piorar no segundo semestre.
Preocupante
Em Novo Oriente, na região dos Sertões de Crateús, o Açude Flor do Campo armazena apenas 1,8% de sua capacidade. Apesar do reduzido volume, estimativa da Cogerh aponta que é um volume suficiente para atender a demanda até a próxima quadra chuvosa, em 2018.
"A gente depende do Rio Poti e do Açude Colina para que a água chegue ao Flor do Campo", explicou o radialista Assis Araújo. "Aqui a situação é de apreensão com o fim do inverno e a falta de recarga".
Localizado em Quiterianópolis, o Açude Flor do Campo está com 57% de sua capacidade, mas não há expectativa de sangria. O reservatório assegura o abastecimento da cidade. No passado, parte de sua reserva já foi usada para atender a demanda da cidade de Tauá, a maior da região dos Inhamuns.
Boas chuvas ocorridas na região deram um alívio à crise de abastecimento da cidade de Independência, nos Sertões de Crateús. O Açude Jaburu II continua seco, mas o Açude Cupim recebeu uma recarga e está com 23% de sua capacidade. "O Jaburu não abastece mais e estamos captando água do Cupim, mais antigo e próximo à cidade", explicou a chefe do escritório da Cagece, Vilene Araújo. "Se não fosse essa recarga a gente já estaria em colapso". Outro reservatório, o Barra Velha, também permanece seco e os poços profundos perfurados somente atendem 30% da demanda local. Outras cidades, como Tauá, Quixeramobim, Acopiara, Arneiroz, Crateús e Nova Russas dependem de abastecimento por meio de adutoras.
Contingência
A Cagece informou, por meio de nota, que, atualmente, 18 cidades encontram-se em situação de contingência. Nesses locais, a Companhia realiza ações com objetivo de preservar ao máximo os mananciais, dentre elas: o rodízio de abastecimento, a disponibilização de carros-pipas e a busca por novas fontes de captação (como perfuração de poços tubulares e construção de Adutoras de Montagem Rápida (AMRs).
Os municípios em contingência são: Apuiarés, Araripe, Baixio, Boa Viagem, Campos Sales, Catarina, Deputado Irapuan Pinheiro, Granjeiro, Ipaumirim, Iracema, Mombaça, Mulungu, Pedra Branca, Pereiro, Piquet Carneiro, Potiretama, Salitre e Umari.
Na cidade de Umari, a dona de casa Marlene Figueiredo disse que acorda cedo todos os dias para encher baldes porque a água que chega às torneiras tem pouca força. "A gente tem que se levantar pela madrugada", contou. "É o jeito para conseguir água para a necessidade diária". O mesmo ocorre na cidade de Deputado Irapuan Pinheiro. O Açude Jenipapeiro está no volume morto e a cidade vive medida de contingenciamento. O comerciário Luís Gomes disse que há água somente em algumas horas, em dias alternados. "Aqui, a dificuldade está cada vez maior".
Em Piquet Carneiro, os moradores também enfrentam dificuldades no abastecimento. A água que chega às torneiras é imprestável para beber e para cozinhar. "O jeito é comprar", diz a dona de casa, Zilda Costa. Duas fontes locais engarrafam água de maneira informal e vendem para os moradores. "Até agora, não há queixa dos moradores", frisou Neila Almeida, do escritório local da Cagece.
Na cidade de Catarina, a escassez de água traz transtornos para os moradores, que precisam comprar de carros-pipa, de melhor qualidade. O Açude Rivaldo de Carvalho está praticamente seco. As famílias passaram a armazenar água em tambores, tonéis e cisternas. Resultado: sem controle, aumentaram os criadouros do mosquito Aedes aegypti, e o Município enfrenta agora uma epidemia de dengue e chikungunya.
Fonte: Diário do Nordeste