domingo, 19 de março de 2017

PRAGA DA LAGARTA: Plantações de milho estão sendo dizimadas no Interior do Ceará

"O sertanejo é antes de tudo um forte". Quando o escritor Euclides da Cunha fez esse registro em um trecho do seu clássico literário "Os Sertões", havia motivo para a expressão, que permanece tão contemporânea como nunca. Passados um século e mais 15 anos, aqueles detalhes, embora na esfera da Guerra de Canudos, na atualidade refletem metaforicamente a luta do povo do sertão pela sobrevivência. Hoje, as adversidades como a seca, continuam. Após um longo período de estiagem, a chuva começa a chegar, mas, com ela, o homem do sertão é obrigado a enfrentar outra guerra, contra a lagarta.
Esse é um desafio de quem começou a plantar milho e feijão nos roçados do Sertão Central do Ceará, no início de fevereiro. "Um bichinho miúdo, rastejante e esfomeado está acabando com tudo. Não deixa nem a rama do milho começar a crescer. A lagarta veio e devorou todo o verde, antes mesmo da próxima chuva chegar", comentou o lavrador Raimundo Edvan Castelo Branco. A lavoura dele foi uma, dentre as dezenas espalhadas pela zona rural de Quixadá, prejudicadas pelo ataque desse inseto.
Para ele e os vizinhos, o surgimento da peste, logo após um período longo de estiagem, foi uma surpresa. Não imaginavam enfrentar o problema tão cedo. Acreditavam que a seca tinha acabado com tudo, inclusive com essa espécie predadora dos vegetais. Não foi bem assim. Bastou surgir o intervalo das chuvas na região para as lagartas aparecerem, aos montes. Da noite para o dia, se não houver combate, o plantio fica comprometido. A semente mal germina, reclama.
Como ainda é início da quadra chuvosa, os agricultores aguardam o auxílio dos técnicos das secretarias municipais e da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ematerce).
Enquanto o socorro não chega, os trabalhadores rurais viram como podem. Alguns compram agrotóxicos e aplicam nas plantações. Outros recolhem as lagartas com as mãos e recomeçam o plantio, mas as muitas dúvidas permanecem.
Uma dessas dúvidas é quanto à utilização da estratégia certa para o combate à praga, se possível evitar a infestação nos roçados. A maioria não acredita nos defensivos naturais, como a urina da vaca. Outros associam a proliferação exagerada ao ciclo do mosquito Aedes aegypti.
"Esses bichos põem os ovos na mata, como o mosquito, e quando a chuva chega, eles se transformam nas lagartas. Quando já estão bem cheios e crescidos viram borboletas. Voando, põem ovos em todo lugar", comenta o agricultor Antônio Clodoaldo Marinho.
Para alguns, a maneira mais rápida de combater a praga é o retorno das chuvas. Com elas as lagartas caem das plantas e são arrastadas pelas águas. Há até quem diga que os trovões e raios assustam e espantam a espécie. Essa é a opinião do presidente da Associação dos Produtores Rurais de Riacho Verde, Francisco Rodrigues, conhecido como Chicão. Em nome dos associados ele reivindica o auxílio técnico dos órgãos públicos. Se comprarem agrotóxicos, os custos vão se elevar e ainda contaminar as lavouras, acredita.
Fonte: Diário do Nordeste